Mais uma tarde cai, o véu da noite cobre por completo o céu
de um invernoso domingo, o vento gélido me envolve e abruptamente me sinto
arrepiada.Minhas pernas criam vida própria e tremem desenfreadamente. Pela
janela, olho a rua completamente deserta e nada me prende a atenção. Não há outra
saída a não ser aceitar, de forma revoltosa, a apatia que me cerca e praguejar
mais uma vez sobre o destino. É... o tempo não têm sido um dos meus melhores
amigos.
Coloco, de modo desajeitado, um casaco e caminho até a
cozinha, me sirvo um café forte e ligo o som. Aproveito cada instante de solidão
como se a mesma fosse minha única opção, proponho indecentemente uma valsa com
o acaso e danço suavemente apurando cada passo que o mesmo ousa oferecer. Quão
irônica é a vida... preencher o vazio com solidão não me parece ser o ideal. De qualquer
maneira, nada me custa tentar.Tentar, tentar, tentar... fiquei tonta por alguns
segundos e logo me veio um fio de esperança.
Engraçado como certas expressões grudam no pensamento. Tentar
até quando?
Não quero acreditar, aceitar e concordar com o destino. No
momento quero proferir-me a dizer, gritar e esbravejar: VOCÊ ESTÁ ERRADO. Logo
tudo vai passar e vou guardá-lo no fundo de um baú velho, aonde haja apenas esquecimento.
Voltei à realidade. Preciso cuidar dos meus afazeres, da
minha vida, da minha lida, do meu coração.
Encontrar um ponto de referência, focar meus objetivos .
Me desculpe, é hora de calçar um sapato novo e descansar
esses pés calejados.
Meu subconsciente diz em alto e bom som: “Levanta menina, não
precisa ter medo... nada é por acaso”.
Acaso, como sempre o acaso. Espero que desta vez ele tenha
me reservado algo bom.
Desligo o som, coloco a xícara na pia e me acomodo no sofá
da sala. Silencio meus pensamentos e me permito acreditar que um dia será possível.
Um dia.
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